ISIDORA
Era para o lado de fora da janela que ele fixava o olhar. Mas não eram as ruas, nem os telhados, nem a luz fraca do poste, nem o sereno que ele via. No final das contas, o olhar só se fixa para algo que não olhamos. Imóvel, ele enxergava sua memória. Esses dias chegou a pensar em como na prova dos nove da sua existência, a relação se dava entre ações, causa e conseqüência de um futuro e os acontecimentos do passado. Às vezes seus lábios (superiores e inferiores) se tocavam. Eram como palavras mudas descarregadas das suas recordações. Talvez algumas frases ditas há alguns anos. Lembrava-se da sua vontade de viver em Isidora e dos muitos planos feitos naquela adolescência quente. Viu um gato caminhando demasiadamente demorado pelo telhado úmido e foi exatamente a ausência de barulho do gesto que o perturbou. Aquilo mostrava sua insignificância. Ele lembrou o Calvino e o parafraseou. O mundo talvez não passe de um zoológico de fantasmas da mente.
RESTO É MAR
Ontem ela ligou pra ele. Logo ontem. Logo ontem que ele se debruçava e tentava entender a solidão do velho Santiago em companhia do seu barco cercado por tubarões. Logo ontem. Eles se gostaram. Eles se gostam até hoje, ninguém pode negar. É perfeitamente compreensível. Ele sempre a admirou. Desde os primeiros ‘ois’ sussurrados, quase inaudíveis. Ela? Ela nunca se deixou esquecer na mesma medida que fazia questão de sempre lembrar. Ela foi direta. Clara. Concisa. Objetiva. Papo de dar inveja a qualquer defensor da drummondiana frase “escrever é cortar palavras”.
Antes que o contador chegasse aos 30 segundos, deram-se ‘ends’. O papo já havia se esgotado por si só. Franqueza das poucas ouvidas e vistas. Ele engoliu seco. Só determinadas circunstâncias é capaz de explicar, embora fosse compreensível que de less em less brote a vontade de se ouvirem. Um ao outro, outro ao um. Eles se perguntaram logo depois do primeiro silêncio: por que virei a esquina naquele dia? Por que ao invés de dizer ‘venha’ eu disse ‘tchau’? Ele pensava: foi justamente naquele desencontro que tive a certeza do encontro. Foi justamente naquele ‘já vou’ que tive a certeza do ‘eu fico’.
Como é possível que uma simples atitude ou a falta dela dite tanto sobre a vida? E Pondé escreveu que com o tempo e as frustrações, a maioria de nós chega à triste conclusão de que é mais feliz quem é mais indiferente. E o resto só pode ser mar.
LIVRO-ARBÍTRIO

“Era uma tarefa engraçada e perigosa para nós dois. Pois, antes de prosseguir, é preciso dizer que a corda de macaco estava presa às duas extremidades; presa ao cinto largo de lona de Queequeg e presa ao meu cinto estreito de couro. De modo que, para o bem ou para o mal, nós dois, naquele momento, estávamos unidos; e caso o coitado do Queequeg afundasse para não voltar mais, tanto o costume quanto a honra exigiam que, em vez de cortar a corda, ela deveria me arrastar junto a ele. Assim, portanto, uma alongada ligadura Siamesa nos unia. Queequeg era meu inseparável irmão gêmeo; nem podia eu, de forma alguma, livrar-me das perigosas responsabilidades que o liame de cânhamo envolvia. De modo tão intenso e metafísico eu compreendia minha situação que, enquanto vigiava diligentemente seus movimentos, parecia perceber com clareza que minha própria individualidade havia se fundido com outra numa sociedade conjunta de ações: que meu livre-arbítrio recebera um golpe mortal; e que o erro ou azar do outro poderia me dragar, um inocente como eu, para um desastre ou morte imerecida. Consequentemente, vi que aquilo era uma espécie de interregno da Providência; pois sua justiça sempre presente jamais poderia ter sancionado uma injustiça tão flagrante. E seguindo adiante em meus pensamentos – enquanto às vezes o puxava de entre a baleia e o navio, que ameaçava esmagá-lo -, repito, seguindo adiante em meus pensamentos, percebi que essa minha situação era rigorosamente igual à de todo mortal que respira; apenas, na maioria dos casos, de um modo ou de outro ele tem essa ligação Siamesa com vários outros mortais. Se seu banqueiro falir, você quebra; se seu boticário por engano colocar veneno em suas pílulas, você morre. Claro, você pode achar que, com extremo cuidado, possivelmente se escapa dessas e de uma infinidade de outras fatalidades da vida. Mas, mesmo lidando tão cuidadosamente com a corda de macaco de Queequeg quanto possível, às vezes ele lhe dava trancos tão fortes que fiquei muito perto de cair para fora do barco. Tampouco podia esquecer que, fizesse o que fosse, eu tinha apenas o controle de uma das suas pontas”
Leia Moby Dick, de Herman Melville
ERMO
Parecia inevitável que seus pensamentos dessem voltas em torno do nada. A pergunta se reproduzia como aquela música insistente que sequer permite completar um ciclo de sessenta segundos antes de voltar a martelar o departamento das lembranças. Amarelo! Em quarenta segundos ou, às vezes, em cinqüenta, nos força a cantarolar como rádios desafinados. Parecia inevitável que todo aquele trânsito estressante para o resto do mundo, servisse apenas de um cenário melancólico e desatento, para ele. Será que estou feliz? O seu pensamento dava voltas em torno de um nada.
Percorreu intransitáveis ruas e avenidas e em cada sinal se encontrava na tentativa surreal de dar consciência a si mesmo. Vermelho! Ele se conhecia, era o bem da verdade, mas quanto mais se tenta fugir da resposta honesta, mas se está propício a se perder em vãs argumentações. Como uma pergunta tão simples pode perturbá-lo tanto?
É injusto o julgamento. É? Certamente é um dia muito escuro para se enxergar e muito silencioso para se ouvir. Verde! Parecia inevitável. A medida que se aceitava a verdade, por mais mentirosa que seus próprios argumentos tentem revelá-la, mais se culpava a solidão. Para ele, quanto mais populoso o mundo, quanto mais barulhento sua casa, quanto mais pesado o elevador e quanto mais inacessíveis seus caminhos, o cotidiano se mostrava um lugar vazio, mudo, leve e pérvio.
Ele não queria aceitar a infelicidade. Vermelho! Mais cedo ou mais tarde, ela alcança todo mundo, sabia? Ele não prestava atenção. Seus pensamentos davam voltas em torno do nada. Absolutamente nada. Não falava. Não ouvia. Não olhava. Não cheirava. Tentava recordar uma fala familiar. Tentava lembrar de uma música da adolescência. Tentava resgatar uma sinestesia esquecida. Verde! Será que estou feliz? Não conseguiu pelos sentidos. Escolheu um dos argumentos e condenou o seu estado solitário. No fundo, compreendeu que o que sempre resta é a solidão.
EXCERTO
“Dos troncos crescem os galhos; e destes, os ramos. Da mesma forma, de assuntos fecundos, crescem os capítulos”
Esses dias ele sonhou mais de uma vez com o mar. E, por mais que sua razão tentasse apontar como o motivo daqueles devaneios noturnos os apelos audiovisuais do belo filme do David Fincher, no fundo, aquele jornalista sabia que quem andava preenchendo suas lacunas de ilusões da madrugada eram mesmo as prazerosas leituras duradouras do velho Moby Dick. Naquela madrugada, ainda com o quarto espelhando a escuridão do lado de fora, o sonolento homem-que-sabe-um-pouco-de-tudo-e-quase-nada-de-muito, cambaleou até seu bloquinho de anotações – páginas brancas pequenas sempre prontas a serem ocupados de coisas que raramente são usadas no futuro. Tendem, no final das contas, a amarelar em algumas dessas gavetas cheias de coisas incapazes de motivar a curiosidade na disputa direta com a preguiça. Essas gavetas incentivam, de vez em vez, a pergunta “o que será que tem aqui?”, mas antes mesmo de abri-las, decide-se por deixar para amanhã o que não se fará nunca.
Sequer acendeu a luz para tomar notas. Escreveu, no máximo, duas linhas. Jogou as páginas do lado da cama e tentou dormir. Virou para um lado, virou para o outro. Resgatou o bloco, fez mais duas ou três curtas anotações e jogou-o no chão. Esmurrou o travesseiro, virou para um lado, virou para o outro. Pegou mais uma vez o bloco, ficou olhando o papel cândido, como quem procura um pensamento recente, ainda que não enxergasse nada além da negra escuridão. Virou para um lado, virou para o outro. Pobre jornalista. Repetiu isso durantes horas. A mesma seqüência. Bloco de anotações no chão, depois na mão, depois no chão, depois na mão.
Só quando a brisa das cinco horas passou e a luz penetrou pelas brechas sutis que o tempo fez o favor de consolidar ao longo dos anos naquela janela de madeira velha, é que o coitado insone rendeu-se a impaciência e desistiu de voltar a sonhar. Naquelas alturas, ele já aceitava qualquer tema. Serviam até os mais assustadores pesadelos da infância. Tudo que ele queria era mais cinco minutos de olhos pregados. Levantou, arreganhou a janela ainda gelada da madrugada, sentou-se e grudou os olhos na página 301. Envolveu-se na história da lula gigante. Esqueceu da ausência do sono. Bastaram-lhe duas ou três páginas a diante para perceber que são dos livros grandes que ele gosta mais. Afinal, como aquele relator de notícias poderia um dia ficar a sonhar com aquele livro do Le Clézio que gastou uma ponte aérea para ler? São os livros grandes que envolvem mais.
ONTEM
Se fosse ontem, num daqueles domingos de muito mocotó...
...tomei caldo de mocotó, aí ó, fiquei forte...
...aquela pequena mesa não caberia muita gente. Teriam que apelar para o bom banquinho de plástico da salvação.
Mas hoje não. Hoje, a imensa mesa acompanha-o vazio e solitário. Hoje sobram sete cadeiras que respeitosamente mantêm-se em silêncio. Talvez ele esteja satisfeito com a sua própria companhia.
Se fosse ontem, naquela emoção de desempacotar o presente...
...a gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele do o faz...
...aquela vontade de gritar uma gratidão incalculável pela janela e o impulso de tentar reverberar aquele grito até o entroncamento das 101, 116 e 324. Se fosse ontem, o preenchimento estaria presente no seu rosto.
Mas hoje não. Hoje o sossego representa a consciência de um ‘muito obrigado’ mudo. Vê-se que a gratidão é muito mais da alma do que das vozes. Talvez o seu agradecimento não esteja em nenhum dicionário; os verdadeiros nunca estão.
Ele ganhou um Machado?!
Se fosse ontem, numa daquelas orientações desorientadas de professores ginasiais que mal sabem o que dizem...
...a primeira glória é a reparação dos erros...
...aquele surpreendente presente, apontaria um ar de tristeza. Quem ler bem “Memórias Póstumas de Brás Cubas” aos 13 anos, meu Deus?
Mas hoje não. Hoje aquele livro abre espaço nos seus prediletos, ocupa geometricamente a mesma estante de tantos outros adoráveis e apaixonantes. Ele ainda não leu aquelas tantas citações, mas a obra está ali, do lado de Dante, de Joyce, de Cervantes e de alguns Saramagos...
...não sei no que ele pensa. A sopa acabou, ele sorriu, levantou e deixou a mesa solitária. Agora apagou a luz. Deixou a sala escura.
COLOQUE NA SUA ESTANTE!
CALÇADA
Passou aquela corrente fria de ar da saudade. E, embora fosse uma noite quente, ele não tinha estranhado a sensação. Não era constante, mas não se fazia eternamente esquecida. Do nada ela surgia, como um mecanismo da memória. “Ela quer mostrar-se viva”, pensava. Se talvez ele não decidisse pelo pão fresco, não a sentiria. Mas ele deixou o conforto tumultuado dos seus trabalhos e desceu as escadas, pensava no título para aquele texto e pensou desde a trivial trancada de porta até o olhar para os dois lados, como sua mãe o ensinara, mas ao atravessar a rua, viu dois jovens conversando, sentados ao meio fio, assim como ele, há quase dez anos.
Ele não se enganou. Sabia que tudo que havia pensado a partir dali, embora parecesse um longo período, dando tempo, inclusive, de restituir boa parte daqueles longos dias de conversas jogadas fora, foram meros segundos. Rápidos e profundos, como os bons sonhos. Se parasse agora, exatamente na porta da padaria e tentasse lembrar do chão que acabara de pisar, não conseguiria. Sua cabeça estava longe. Eu vi a Luana hoje ela está sei lá mais mulher mais linda do que antes embora saiba que você ache impossível que ainda exista melhora para um rosto tão perfeito você viu até o final deu um aperto no coração aquele gol aos quarenta e cinco do segundo o Diego me disse que chegou a chorar quando pensou na possibilidade de partir imagine quando ele descobrir que irá mesmo. Ele estava longe.
Quando notou estava encarando um pão como Laika encarou o universo. O calor estava de volta e de súbito, relembrou o mestre Luiz Gonzaga... saudade entonce assim é bom pro cabra se convencer que é feliz sem saber pois não sofreu...

“O que Bloom, amante da água, tirador da água, aguadeiro, voltado para o fogão, admirava na água?
Sua universalidade: sua igualdade democrática e constância em sua natureza ao procurar seu próprio nível: sua vastidão na projeção oceânica de Mercator: sua profundidade desconhecida na fosso de Sundam do Pacífico excedendo 8.000 braças: a agitação de suas ondas e partículas de superfície visitando sucessivamente todos os pontos de sua orla marítima: a independência de suas unidades: a variabilidade dos estados do mar: sua quietude hidrostática na calmaria: sua turgidez hidrocinética em maré morta e fortes marés: sua subsidência depois da devastação: sua esterilidade nas calotas circumpolares, árticas e antárticas: seu significado climático e comercial: sua preponderância de 3 a 1 sobre a terra seca do globo: sua hegemonia indiscutível se estendendo em léguas quadradas por sobre toda a região abaixo do trópico subequatorial de Capricórnio: a estabilidade multissecular de sua bacia primitiva: seu leito lúteofulvo: sua capacidade de dissolver e conservar em solução todas as substâncias solúveis inclusive milhões de toneladas dos metais mais preciosos: suas erosões lentas de penínsulas e ilhas, sua formação persistente de ilhas homotéticas, penínsulas e promontórios propensos à inclinação...”
Está longe de ser o melhor trecho do “Ulisses”, mas em dois meses de leitura de James Joyce aprendi que nada é dispensável e que tudo tem uma referência... absolutamente tudo tem referência...
Quer boas referências? Então leia Ulisses, de James Joyce
ORGULHO DE SER...
Inventamos, pensamos, criamos, trabalhamos e fizemos acontecer. Há uma semana está no ar, pelo site do canal FIZ TV, a primeira edição do programa FIZ + Sotaques internacional. Com fuso horário e tudo. Com distância e tudo. Com "gringês" e tudo. E com muitos, mas muitos probleminhas técnicos, tornamos realidade uma vontade de fazer diferente, de superar nossos limites "fronteirísticos". Mas tenho dito, nada disso, absolutamente nada, seria possível se não fosse uma galera com vontade de tornar a ideia do videorrepórter Augusto Paim (que assumiu a posição de diretor nessas duas edições), algo palpável interneticamente. Recebemos ao longo da semana inúmeros elogios que encheu nossa equipe de incentivo e orgulho. Essa semana, porém, continuamos a saga. Agora, convidamos um sociólogo para fazer observações e explicar o porquê da gente ser conhecido pelo mundo como o país do futebol, carnaval e samba.
Para quem fez acontecer, um agradecimento muito especial: Augusto Paim (ALE); Danusa Ciochetta (ARG); Edina Girardi (ARG); Luciane Treulieb (ING); Marcelle Souza (BRA); Tales Tomaz (BRA); Thais Bugnara Rosa (BRA).
Embora sejam discussões que podem ser acompanhadas separadamente, seria interessante assistir ao primeiro programa antes do segundo. Seguem os dois, divididos em quatro blocos.
Programa Fiz + Sotaques internacional I - bloco 1
Programa Fiz + Sotaques internacional I - bloco 2
Programa Fiz + Sotaques internacional II - bloco 1
Programa Fiz + Sotaques internacional II - bloco 2

“O melhor
caminho
é sempre aquele que nos
leva
ao
mar”
João Cabral de Melo Neto
NEM TODOS OS SÁBADOS ENTERRAM ÀS SEXTAS
O mais gordinho, de piercing, do canto direito, permaneceu aqui nestes últimos anos. O outro, alto e magrelo, de sandálias Havianas, tá vendo? Pois é, esse foi pras bandas do Sudeste. Eles devem ter mudado, sei lá. Mas os vendo assim, não recomendo que apostem nisso. Parecem falar de teoria política, de sociologia, como se estivessem a dez minutos de uma prova universitária importante. Mas lá se vão mais de três anos desde o último exame. Quanto eles aprenderam nesses acasos dos tempos idos? Suas idéias podem ter mudado muito. Suas visões de mundo devem ter se multiplicado. Para qual mundo eles olham agora? São cinco para às dez. Seus pratos estão sujos e vazios, mas refletem o cheio da satisfação. Daqui a exatos cinco minutos não se pode comer mais. São recomendações médicas, sabia? Amanhã aquele ali consertará o joelho. Dor de joelho não deve ser fácil. Olha o riso daquele. Devem estar relembrando de um professor hilário. São inevitáveis essas recordações. Olha o riso dele. Eu sempre soube, desde as aulas enfadonhas, das aulas sem graça ao quadrado que o sorriso do bochechudo, aquele do canto direito, é um sorriso que vale por três. Há menos de uma hora eles falavam de despedida, de novos planos. O de brinco irá se mudar. Cidade nova, amigos novos, trabalho novo. Lembra o que Goethe dizia? Cuidado com o que você almeja na mocidade porque você o obterá na meia-idade. Ele dizia isso e as pessoas até hoje pensam que é uma reflexão negativa. Que nada! Olha lá, outra boa risada. Sem dúvida, são boas lembranças. É bom vê-los assim. Há pouco os enxergava falando sério, como aquelas discussões sobre cibercultura. Lembra? Eles queríam matar o Pierry Lévy e enterrá-lo no pseudo-shopping da universidade que estudavam. É a mesma diáletica de sempre. Brigam, defendem suas idéias como guardiões de reis, mas no final trocam piadas, descontraem-se como colegas jogando bolinhas de gude. Safados! Eram ótimas idéias, vocês precisavam ver e ouvir. Safado! Ainda teve a cara de pau de escrever “troco farpas com minha falta de inspiração”. É um descarado aquele de piercing, o gordinho, do sorriso que vale por três. É divertido analisá-los daqui. São bons amigos e apesar dos anos, da não-convivência nos butecos ou nas salas de aula, da não-troca constante de textos, das novas experiências, daquilo que o povo aprendeu a falar agora, “da correria”, palavra da moda, eles dois, da esquerda e da direita não mudaram muito. Tem um trecho ótimo para descrever tudo isso. Foi o James Joyce que escreveu. Peraí... aqui, achei. Página 256, do Ulisses. “Nós caminhamos através de nós mesmos, encontrando ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, cunhados, mas sempre nos encontrando”.
Boa sorte ao gordinho, do canto direito, de piercing. Aquele mesmo que estala os dedos em busca de uma lembrança. A memória dele nunca foi boa, coitado.
Nem só de fatos e verdades vive a história...

...a vida é sonho...
Três anos!
Com a imprevisibilidade de um futuro ‘internético’, é difícil dizer se três anos são muitos ou poucos. Entre seus processos e produtos, entre posts e comentários, três anos é certamente contraditório. Passa rápido, mas deixa marcas duradouras. Parece que foi ontem, porém, satura lições para o resto da vida. Assim tenho aprendido comigo e com o Mascando Clichê a cada autocrítica, a cada releitura. E assim tenho aprendido com os outros três blogs que nasceram juntos, exatamente, no dia 20 de novembro de 2005. Todos tomaram outros rumos, remodelaram-se, mas mantiveram sua essência inquieta. É como se uma espécie de cheiro original não mudasse, permanecesse como uma sinestesia da primeira visita.
Eis que eu, tu e eles, completam três anos e ganhamos de presente uma (re)lembrança de um belo dia... obrigado Babi Borghese... não haveria de ser melhor aquele abraço e as suas lembranças...
Aquele abraço!
Ano passado, logo depois de comemorarmos dois anos desses quatro blogs (se você quiser saber quais são os outros três, parafraseando o Augusto, cutuca aqui, aqui e aqui), o Rumos Jornalismo Cultural, padrinho de todos, reunia na sede do Itaú Cultural
Cada um mata a saudade como pode. Como não posso abraçá-los a toda hora, procuro cutucar sempre os quatro blogs para lembrar do Anderson (que foi mudando seu artorpedo aos pouquinhos e hoje tá mais pra poesia do que pras gadgets do milênio), do Augusto (quem faz ou gosta de quadrinhos tem que acompanhar o cabruuum), da Elisa (que começou publicando seus poemas e hoje abre espaço no caliope pros colegas, especialmente os ibero-americanos) e do Leandro (que ao se mudar de Aracaju deixou de pegar no pé da imprensa sergipana pra falar do jornalismo cultural em geral no mascandocliche, muita coisa assinada por ele mesmo na Rede Minas, diga-se de passagem).
E agora também posso cutucar o blog da Ludmila, reativado depois de uma pausa pra balanço, quase sem mudanças – o oraboa continua a tratar de música boa - e o novo blog da Júlia, que não é o que nasceu no Rumos, mas de qualquer forma, a vontade de blogar começou ali, então... continua valendo. E além disso, suas mini-crônicas do cotidiano de Beagá é uma delícia de tutumineiro!
É minha forma de lembrar deles, de sentir que estamos perto ainda que distantes (viva a internet!). E com isso, acabo lembrando dos outros oito, porque são todos uns queridos...
A exemplo da primeira geração de jornalistas que recebeu apoio do Itaú Cultural, certamente a segunda não vai decepcionar e novos projetos sairão dessa experiência. Ainda não sei o que vai ser dos 17, mas só espero uma coisa: que o abraço coletivo que darei ao encontrá-los vire uma tradição e se torne um símbolo da união de todos os selecionados no Rumos Jornalismo Cultural de todas as edições.
Que no ano que vem, ao celebrar mais um aniversário desses seis blogs, os recém-contemplados na edição 2009/2010 possam presenciar mais um abraço coletivo dos que terminaram a jornada. E em 2011, 2013, 2015... e que a gente tenha muitos novos blogs, sites, artigos, livros e o que mais vier pra comemorar!
DO ASSALTO AO TREM PAGADOR AO SEQÜESTRO DO 174
Foi cobrindo uma pauta sobre artistas baianos que o então fotógrafo e repórter da revista O Cruzeiro, Luiz Carlos Barreto, conheceu Glauber Rocha. A vida do cearense mudaria completamente. A partir dali, as idéias glauberianas invadiriam a rotina de trabalho do jornalista, e ele, aos poucas abandonaria os clicks e a Olivetti e mergulharia no universo do cinema. Anos depois, se tornaria Barretão, um dos maiores produtores cinematográficos do Brasil. Na primeira parte da entrevista que ele concedeu ao programa Agenda, da Rede Minas de Televisão, ele fala sobre seus primeiros trabalhos e comenta alguns dos mais de 80 filmes que tiveram sua assinatura...
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