REVERBERANDO

 

Esses dias, visitando meus blogs preferidos, eis que encontro com este perspicaz texto de Álvaro Muller (que mesmo torcendo para o Vitória, faz parte dos 10-melhores-jornalistas-sergipanos-contemporâneos e que aliás já foi elogiado algumas vezes no Mascando). Identifiquei-me, ora bolas! E quis compartilhar com todo mundo que anda por aqui e que ainda não tinha andando por lá (clique agora e conheçam o botecospício). Com vocês a contradição cada vez mais viva das redações jornalísticas... sem mais delongas:   

 

O PROFISSIONAL-RELÓGIO

 

Por Álvaro Müller

 

Esqueça o coleguismo. Amizade? Nem pensar. Adoeceu, perdeu um parente, precisa viajar, visitar o gerente da sua agência bancária antes que o seu nome vá parar no SPC? Problema seu. Não conte com o profissional-relógio, a não ser que a ‘caridade’ dele possa ser revertida no bendito banco de horas. Em suma, ele ajuda a si mesmo botando a banca de quem salvou a vida do colega. Mas, como diria meu amigo Anderson Ribeiro, um desses bestas que não admitem a possibilidade de colocar o tico e teco funcionando ao ritmo compassado do tic e tac, “banco de horas é coisa pra quem não tem o que fazer”. E num é que ele está certo?


O profissional-relógio não enxerga nada além do seu horário de entrada e saída no trabalho. Para aquém ou além do que registra no ponto, não faz nada que não lhe dê retorno. Foi contratado para trabalhar 8 horas e a empresa que se dane ou pague por cinco minutos que sejam a mais.


Já profissionais bestas como eu e Anderson Ribeiro são raros. E é por isso que trabalhar com ele é um alento. Somos bons jornalistas? Sei não. Mas é certo que somos esforçados, trabalhamos pela pauta, pelo amor à profissão e, sobretudo, pelo prazer de degustar uma cerveja gelada após horas e horas de labuta. Ah! E só brigamos quando o trabalho nos rende elogios. “O Mérito é dele” quase que uníssono e dedos indicadores em riste.


Gente como a gente quer é produzir e fazer bem feito, sem necessariamente aguardar uma contrapartida dos nossos empregadores. É uma questão de competência, de valorização do próprio suor, de compromisso com aquilo que se propõe a fazer. Trabalhadores como eu e o Ribeiro viram madrugadas no batente, não têm tempo de fazer refeições dignas – e justamente por isso estamos tão redondinhos –, colocamos nossa saúde em risco, mas acreditamos no que fazemos. Os profissionais-relógio não sabem disso, mas trabalhar é também uma diversão pra quem ama o que faz e se reconhece como parte da engrenagem de uma empresa, tanto no semear quanto no colhimento dos frutos.


Ah! E antes que eu esqueça de comentar, à exceção dos casos em que a contraproducência compromete o nosso trabalho, eu e Anderson Ribeiro também não nos incomodamos com o que fazem ou deixam de fazer os outros colegas. Coisa que os profissionais-relógio têm como atribuição cotidiana, talvez, por conta do tempo de sobra para pensar na vida alheia. Eles não estão com a gente nas madrugadas, não abrem mão da praiazinha do final de semana, não fazem um servicinho sequer fora da empresa com combustível próprio, mas se sentem no direito de nos ‘cobrar’ 10, 15 minutos de atraso. Vá entender...

Percebo que as próprias empresas têm parcela de culpa por cultuarem nesses espiritozinhos formatados a prática de bater o ponto rigorosamente em dia e não precisar justificar horas e horas ociosas de msn, orkut, lixamento de unha e coisas do tipo. As empresas realmente nivelam a produção por baixo e acabam se transformando em empregadoras-relógio para quem vive sob a égide do horário fixo de trabalho. Agora, isso não dá aos frustrados profissionais-relógio o direito de tentar nos demarcar a vida. Porque diabos nunca comparam a nossa produção, ora bolas?


No final das contas, profissionais como eu e Anderson Ribeiro até tentam aturar esses vigilantes de quinta, sobretudo, por que deve ser um calvário trabalhar, criar por obrigação. Mas também têm horas que esses profissionais-relógio nos enchem a paciência, né? Daí, só nos resta responder no melhor estilo Débora Garrafinha, querida colega da Aperipê: “Caralho, velho! -----, vão se fuder, velho!
Muito foda isso!”.

ANALFATÓTELES: NADA MAIS, NADA MENOS!

 

Quem mais poderia garimpar da inocente ignorância o conceito de um dos maiores aprendizados da cultura brasileira? Descobrir que foi justamente a falta de um conhecimento filosófico que remodelou a filosofia (ao mesmo musical) de todo um país? Certamente Antônio José Santana Martins, o Tom Zé, é feito dessas substâncias que são feitos os gênios e dessas matérias que se consolidam revoluções.

 

Um homem que reconhece a ignorância (desconhecimento de Oswald de Andrade e Aristóteles) na sua época de maior efervescência criativa (nascimento da Tropicália) e que em meia hora de conversa consegue contextualizar desde Dante Alighieri até Augusto Boal, para falar de tropicalismo, não pode ter nascido sujo de sangue e em silêncio, até o tapa despertador de um médico. Tom Zé é especial e talvez por isso (mas não só) seja o mais revolucionário músico da MPB há mais de trinta anos.

 

Entrevistá-lo é uma experiência de reconhecer em cada fala a principal tarefa do artista, como disse certa vez Trumam Capote: domar, e dar forma a uma visão criativa em estado bruto. Ele faz isso o tempo todo! Queria compartilhar com vocês!

 

 

 

LIVRO ARBÍTRIO

 

 

“Ser imortal é insignificante; exceto o homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível, é se saber imortal. [...] Sabia que num prazo infinito a todo homem acontecem todas as coisas. Por suas virtudes passadas e futuras, todo homem é credor de toda bondade, mas também de toda traição, por suas infâmias do passado ou do futuro”

 

Quer tentar compreender o mundo? Então leia O Aleph, de Jorge Luis Borges

 

Trecho do conto “O imortal”. Uma homenagem do Mascando Clichê aos 22 anos de morte do maior escritor argentino (Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — Genebra, 14 de Junho de 1986)  

“1968 É UMA OBRA ABERTA”

 

 

 

O título deve ter sido a primeira coisa que ele escreveu com sua inseparável caneta Bic: “1968 – o ano que não terminou”. Por mais que se pense, por mais que se tenha pessoas criativas e tituleiros experientes, talvez ninguém poderá achar melhor definição para 1968 do que a dada pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura, em 1988. De fato, aquele ano não coube em 12 meses. E só mesmo Zuenir para dar esse título tão cheio de ares infinitos e começar o livro de uma forma tão curta e objetiva: “A nossa história começa com um réveillon e termina com algo parecido a uma ressaca”.

 

Mas nem as quase 300 páginas dessa primeira obra publicada em 88 foram suficientes para relatar tantos acontecimentos entre esse réveillon e essa ressaca. 40 anos depois, 20 após o lançamento do primeiro livro, Zuenir repete a fala: “Como eu ia dizendo... ou melhor, como eu disse há vinte anos [...], a história que eu ia contar começava com um baile de réveillon...” Mas, desta vez com o livro “1968 – o que fizemos de nós”, o escritor revela o que remanesce de um dos mais importantes anos do século XX, dividindo a sua visão de repórter (primeira parte), fuçando heranças de meia-oito em raves e batidas policiais com a visão de personagens (segunda parte), por meio de entrevistas perspicazes com nomes como Caetano Veloso e Heloísa Buarque de Hollanda. Ao final das leituras, nunca se sabe se ambos os livros são as respostas para as perguntas de Zuenir ou as perguntas para suas respostas. O que fica claro é que, parafraseando o próprio escritor, a história desabou sobre sua biografia.      

 

Outra certeza é que mesmo os dois livros dedicados ao tema, lançados em uma edição comemorativa pela Editora Planeta, numa caixa que reúne as duas obras (1968 – o ano que não terminou (revisado) e 1968 – o que fizemos de nós), não são suficientes para dizer tudo sobre aqueles meses. “Talvez daqui a vinte anos eu lance outro livro e mesmo assim o assunto não se esgotará”, brinca Zuenir Ventura.     

 

Se a gente pensar em 1945, a gente lembra do fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1989, a queda do Muro de Berlim. 2001, o atentado às Torres Gêmeas. São exemplos de um único dia que marcou todo um ano. Mas 1968 tem uma pluralidade de vários acontecimentos: revolta dos estudantes em Paris, Primavera de Praga, Passeata dos Cem Mil, AI-05, minissaia, Tropicália, assassinato de Martin Luther King, enfim. Por que tudo aconteceu de uma forma tão conectada exatamente em 1968?

 

Acho que esse é um dos mistérios de 1968. Por que naquele momento em vários países... país comunista, socialista, capitalista, país com ditadura, com democracia... em cidades  que não tinha nada a ver uma com a outra, sem globalização, sem internet. Por que naquele momento houve tanta sincronia de acontecimentos e mais, de sincronias de atitudes, né? De repente os jovens passaram a usar os mesmos cabelos, as moças a mesma minissaia, todo mundo ouvindo a mesma trilha sonora, Beatles, Rolling Stones. Quer dizer, esse é um dos mistérios que ainda não foi esclarecido. É um desses segredos da história. Não tem como ser respondido. Tinha um autor francês que lá em 1968 dizia assim: ‘serão precisos muitos anos para se entender 68’. 40 anos depois, eu continuo dizendo: serão precisos muitos anos para se entender 68.

 

O que mudou na sua visão, do momento em que o senhor escreveu o primeiro livro, em 1988, e o segundo, em 2008?

 

Eu nem ia escrever esse segundo. Ele se escreveu quase que sozinho. Eu só iria fazer uma revisão, mas a medida que eu ia revisitando os personagens, revisitando aqueles acontecimentos, eu fui descobrindo um novo livro. Aí liguei para o editor e disse: já estou fazendo outro.

 

Por quê?

 

Porque eu comecei a procurar vestígios de 1968 nos vários lugares. Tem um capítulo do livro que é “Há um meia-oito em cada canto”. Tem meia-oito no Governo, na oposição, na esquerda, na direita, no Congresso, no Supremo. Todo lugar tem um meia-oito. Incrível! Descobrir vestígios daquele ano até em festa rave. Encontrei 1968 em diversos comportamentos dos jovens de hoje. Ele acabou sendo um diálogo entre as duas juventudes. A juventude de 68 e a de hoje!

 

Então foi um processo de criação completamente diferente do primeiro livro. O senhor mesmo já falou que no caso do “1968 – O ano que não terminou”, foi preciso uma conspiração [envolvendo sua mulher Mary e o Sérgio Lacerda, então dono da Nova Fronteira Editora] para que ele fosse feito.

 

É verdade. Essa observação é perfeita. Esse surgiu naturalmente. Bem diferente do lançado em 1988.

 

Talvez uma conspiração dos fatos...

 

(risos) É verdade! Bastou olhar com um pouco mais de cuidado para perceber 1968 em todos os cantos, por isso foi inevitável.

 

Perceber a fragmentação, por exemplo?

 

Exatamente! O segundo livro é feito de segmentos. Tem um capítulo que chamo de “Viva o corpo brasileiro!”, que fala de mudança. Eu brinco nele dizendo que sai Freud e entra o cooper. Quer dizer, você hoje não faz mais a cabeça, você faz o corpo, né? Você vai pra academia de musculação, não vai mais para a academia dos livros. Geração é um bom exemplo da fragmentação. Hoje você não fala mais em geração, isso até é uma tendência pós-moderna, na verdade você fala em tribos. É uma grande diferença para 40 anos atrás.

 

O primeiro capítulo do “1968 – o que fizemos de nós”, mostra muito isso.

 

Isso. Fiz uma revisitada ao famoso réveillon da Heloísa Buarque [de Hollanda], no capítulo “Reflexos do baile distante”. São três senhoras hoje, avós, cheias de netos que eram as meninas daquela época. E foi exatamente isso. Acabou sendo uma conversa sobre ontem, mas muito mais sobre hoje, muito mais sobre essa ‘geração’ fragmentada dos netos delas.

 

A segunda parte do livro é dedicada a entrevistas. Como se deu a escolha? Há tanto meia-oito importante e com tanta coisa para dizer.

 

Claro. Eu escolhi sete, mas poderia ter escolhido 14, 21 e até 100 mil, como a Passeata (risos). Como a primeira parte é um mergulho de reportagem...

 

O senhor parou até em rave, até em batida policial.

 

Então. Mas é uma coisa que nós jornalistas adoramos fazer, né? O melhor do jornalismo é a reportagem, é cair no campo e apurar. Sem falar que é a chance da gente fazer coisas que na vida civil não se faz. Aí eu queria que tivesse além desse meu olhar, desse olhar de repórter, tivesse alguns outros olhares. Que fosse uma coisa plural. O critério que usei foi o seguinte: escolhi sete personagens de grande importância naquela época.

 

Insisto. Mas por que esses sete e não outros? Por que não 14, por exemplo?

 

Bem, para cada um usei um critério diferenciado de escolha. Talvez o primeiro que pensei, por exemplo, foi o Fernando Henrique Cardoso, que conheci quando eu estava de férias em maio de 1968, na França. E dos vários personagens que também estavam lá, como o Zé Celso [Martinez Corrêa – diretor de teatro], a Íttala Nandi [atriz] e outros, Fernando Henrique foi quem chegou mais longe. Quer dizer, chegou à Presidência da República duas vezes. Eu pensei: que experiência maravilhosa. Ele viu tudo começar lá e depois assumiu o cargo mais importante do país aqui.

 

Antes de você continuar falando dos escolhidos. Estar de férias na França naquele maio de 1968 me martela a seguinte questão: 1968 lhe persegue ou o senhor persegue 1968? Por que FHC estar na França, tudo bem. Ele era inclusive professor de Daniel Cohn-Bendit [ex-líder estudantil e atual deputado europeu], já estava engajado. Mas passar férias justamente onde aconteceria um dos maiores, entre tantos, acontecimentos daquele ano...

 

(risos) Se ele me persegue ou eu a ele? Eu acho que as duas coisas. Foi um ano muito marcante para minha geração e eu sabia que teria que entendê-lo ou pelo menos tentar. Então as coincidências me levam a pensar que ele me persegue, mas eu também o persigo. Até entendê-lo. Eu terminei esses dias uma entrevista com o Jô [Soares] e aí ele disse: ‘Zuenir, então daqui a vinte anos você volta aqui com outro livro sobre 1968’. (risos) Eu falei: ‘se bobear, será isso mesmo’.

 

E o assunto ainda não terá se esgotado.

 

Pois é. Serão precisos muitos anos para desvendar 1968.

Continua falando dos entrevistados na segunda parte do segundo livro.

 

Depois do Fernando Henrique, eu pensei no José Dirceu porque ele é talvez a figura mais controvertida de todos meia-oito e que foi líder de 1968 em São Paulo, na época, e que chegou a ser o segundo homem do Governo Lula e saiu com toda aquela história. Era muito interessante saber o que ele pensava de tudo isso. Depois pensei no Franklin Martins que além de ter feito frente na Passeata dos Cem Mil, também foi um dos seqüestradores do embaixador americano e hoje cuida da comunicação do Governo Lula. Aí veio o Fernando Gabeira, Heloísa Buarque, o Caetano, que foi o cara que fez a trilha sonora daquele período e, claro, o Cezinha [César Benjamin] que tem uma história muito dramática. Ele ficou preso cinco anos dos quais três em absoluto isolamento. Enfim, são sete personagens com grandes histórias para contar. Achei que com eles a gente teria um grande painel de 68 e dos anos posteriores.

 

Tem um capítulo do livro que é “A culpa é de 68”. Ele tem relação com o filme “A culpa é de Fidel” [Dir.: Julie Gavras – 2006]?

 

Tem. Esse capítulo é uma citação desse filme extraordinário. Foi até minha filha que indicou. Fui ver o filme e descobri que, quando fui preso como todo mundo naquela época, por nada, minha filha tinha 4 anos e ela ia me visitar e eu ficava com medo que ela ficasse traumatizada, aí eu ficava dizendo: ‘Elisa, imagina. Isso aqui é ótimo! Eu e o Hélio [Pellegrino] a gente tem 15 minutos de banho de sol por dia, a gente aproveita para jogar basquete, está ótimo!’. Fiquei tentando mostrar o lado bom para não traumatizá-la. Mas aí eu descobri depois que na cabeça dela eu achava tão bom a prisão que eu tinha escolhido ficar lá em vez de ficar em casa. Ela pensava: ‘se está ótimo lá, ele não vai mais querer voltar’. Isso me alertou e aí eu comecei a conversar com filhos de outras pessoas, como o filho do Betinho, por exemplo, e a filha do Ziraldo, que também tinha a mesma sensação da minha filha. Essas histórias me inspiraram para esse capítulo. Outra coincidência foi que logo depois o meu filho, o Mauro [Ventura], me indicou “O ano que meus pais saíram de férias” [Dir.: Cao Hamburguer – 2006], e o garoto tem o mesmo nome dele e a mesma história...

 

Olha a perseguição de 1968 aí.

 

(risos) Exatamente. O capítulo é todo autobiográfico.

 

Zuenir Ventura tem virado identidade de 1968, certo? Isso não cria uma confusão nos leitores? As pessoas não lhe cobram além das suas atribuições como escritor?

 

Pois é. As pessoas, às vezes, me cobram por 1968 (risos). Eu tenho que dizer sempre: eu sou um personagem que apenas relato o que vivi e ouvi, nem defendo nem acuso. É curioso porque 1968 não é um ano, é um personagem. Vejo as pessoas atribuir a ele adjetivos humanos. 68 é muito besta! 68 é onipotente! 68 é cheio de si (risos). Mas eu não sou responsável nem pelos feitos nem pelos desfeitos de 1968.

 

O que foi feito e o que foi desfeito politicamente? O que o senhor diria da geração de 68 que chegou ao poder?

 

Essa geração desvirtuou um valor sagrado de 68 que é o valor da ética. Minha principal crítica, e não tenho tolerância com relação a isso, é que foi desfeito esse valor. A ética como uma prática e como um valor. Nada justifica isso. Uma coisa é você fazer acordos políticos, parcerias em função do bem público. Agora, tem limites, há coisas que você precisa dizer: “a partir daí não faço nada”.

 

Qual grande escritor o senhor encontrou em 1968 que também é importante para se pensar sobre aqueles meses, 40 anos depois?

 

Eu acho que é Umberto Eco. Eu cada vez mais me identifico com ele. Ele escreveu um livro chamado “Obra Aberta” e deu um novo sentido para as várias interpretações da leitura. É riquíssimo para se entender qualquer ano, mas para 1968, é fundamental. “Obra Aberta” mostra leitura num sentido muito mais amplo. Você olha para um quadro e o lê de várias maneiras. Era algo pouco dito e discutido naquela época. 1968 é um obra aberta (risos)

 

Falta ser dito alguma coisa de 1968? O quê?

 

Não sei, mas certamente faltará sempre. Ele é um ano aberto, assim como o livro do Eco. É um ano muito misterioso, enigmático. A principal coisa é se questionar: por que naquele ano houve essa sincronia planetária? Uma sincronia sem ter nenhuma conexão, sem internet. Acho até que 1968 foi o primeiro evento de globalização do planeta. É isso: por que tantas coisas aconteceram naquele ano?

 

E aí a gente volta para a primeira pergunta dessa entrevista. Vamos começar novamente, então?

 

(risos) É a prova de que muita coisa ainda falta ser dita sobre 1968.

Assistam...

Comentem...

 

Depois eu digo!

 

Ah! É bom que visitem: http://sotaquesdobrasil.blogspot.com

“De diversos pontos do mundo a luz se mostra aos olhos mortais; porém o Sol é mais fecundo daquela parte em que três cruzes vêem-se unidas a quatro círculos. Vinda de sob benfazeja estrela e percorrendo curso mais favorável, pode essa luz temperar e modelar a matéria. De um lado viera a luz; do outro, chegara a noite. Assim, um dos hemisférios branquejava, enquanto o outro mergulhava em trevas, quando Beatriz voltou à esquerda sua atenção, fitando o alto Sol com firmeza incrível. Fitei o Sol com determinação – algo impossível para o homem. É lícito no Paraíso muito do que na Terra nos é vedado” – A Divina Comédia (L&PM - pág. 229)

 

 

Há 743 anos nascia, em Florença, na Itália, Dante Alighieri. O autor de Comédia (A Divina Comédia) é o típico caso em que nunca se saberá quem é mais importante, o autor ou a sua obra. Sobre ele escreveu Harold Bloom: “Dante é o único poeta cujas originalidade, inventabilidade e fantástica fecundidade rivalizam de fato com as de Shakespeare. Lê-lo enriquece a vida”.  

 

“Quem desejar compreender o que eu pude então ver, que grave minha narração na mente como se em rocha firme” - Dante Alighieri

TODOS OS NOMES DO MUNDO*

 

 

Acho que foi ontem. Esses dias de frio intenso e sem chuva são sempre tão iguais, que sempre me confundo. Desci a portaria para receber um novo livro. Eles sempre vêm poeticamente disfarçados em envelopes pardos reforçados. O motoboy era o mesmo de algumas semanas. “Bom dia Edgar. Tudo bem?” - cumprimentei. O que tem de mais nesta frase? Exatamente por não ter nada de mais que Edgar tentou ocultar seu desconforto. Tentou esconder o sorriso que lhe forçava o canto da boca. Edgar é sempre tão anônimo. Sempre tão e cada vez mais, um simples entregador. Tenho certeza que boa parte das pessoas sequer olha em seus olhos, sequer percebe seu capacete arranhado e aquelas marcas do perigo do ofício. Confesso que se não fosse meus problemas de memória, Edgar não receberia o meu efusivo, pessoal e intransferível cumprimento. Não! Minha frágil memória não permitiria lembrar daquilo que o torna gente nesse mundo desumano: seu nome.

 

Nome! Não existe melhor invenção histórica que essa. Nome nos permite ser único e ao mesmo tempo ser vertentes de vários outros. Minha mãe, por exemplo, tem um nome tão comum que ao mesmo tempo em que possui inúmeros nomes de mortos, ela possui incontáveis nomes de tantas pessoas vivas e, o mais extraordinário, minha mãe possui nome de muitas que nascerão. O nome dela é Maria.

 

Há algum tempo associo o nome das pessoas que acabo de conhecer a personagens de romances e até mesmo (quando se tem o privilégio documental) aos grandes escritores que já li. “Edgar” não é um nome de se esquecer na primeira virada de esquina. Como é possível esquecer do nome de alguém capaz de escrever “A Carta Roubada”. Quer saber um nome que nunca esqueço? “Janaína!” “Janaína” é a eternidade do feminino. Quantas músicas não foram escritas com estas sete letras? Salve Dorival! “Beatriz”. “Beatriz” passou a ser, desde Dante, inconfundível. “Constante”. Não conheço ninguém com esse nome, mas será imortalizado na minha memória o dia que ouvir de alguém: “prazer. Meu nome é Constante!”. Imagina alguém ter o nome do único personagem que Saramago nomeou e fez questão de apresentar ao leitor no “Ensaio sobre a cegueira”?

 

Quando percebi o desarranjo de Edgar, tive vontade de contar. “Olha aqui, desculpa a sinceridade – porque a gente precisa pedir perdão para ser sincero, afinal? – mas lembro do seu nome por causa de Edgar Allan Poe. Você conhece?”. Mas nestas horas de associações nominais sempre tenho dois caminhos a tomar: ou fazer de conta que tenho uma excelente memória (e invariavelmente isso quer dizer – visto a partir do lembrado – que ele significa algo pra mim), ou parecer um pseudo-intelectual conformista que fez questão da pergunta única e simplesmente para parecer inteligente. Já dizia João Cabral de Melo Neto: “o homem sábio sempre evita dizer a verdade quando ela parece ser mentira”. Invariavelmente opto pela escuridão dos meus ainda escassos conhecimentos. Opto pela clandestinidade do meu ainda raso caminho literário.

 

É estranha essa maneira que os nomes têm de embrenhar-se no meu espírito. Se isso tem um sentido, um sentido explicável, só posso dizer que me escapa completamente. O que sei é que os nomes são pérfidos, em especial, para os pobres ‘desliterariamente’ abandonados. Não saber a quem já pertenceu o seu nome, é a mão de ferro fervente do destino. Não tive coragem de perguntar se Edgar sabe. Nunca terei. “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens” **.    

 

*Texto fortemente influenciado pela minha última leitura: “Todos os nomes”, de José Saramago.

**Livro das Evidências – trecho destacado no início de “Todos os nomes”.

MINHA LISTA DAS COISAS DE SÃO PAULO

 

 

De São Paulo o que se leva? Perguntei-me, entre sujeito e predicado, entre idas e vindas pelo caótico trânsito da quarta maior cidade do mundo. A grandeza dali nos força a pensar em lembranças devidamente proporcionais. Por exemplo, de São Paulo não se pensa em levar postais e esses meros trecos que sequer ocupam lugar na mala. Não! Isso é pensar contrariamente ao que suas paredes de concretos sugerem. De São Paulo se imagina levando todo um Masp e suas magníficas obras. Toda uma Paulista, mesmo quando iniciada no Paraíso e finalizada na Consolação, ou o inverso disso. Sim! A imensidão daquela cidade não nos permite imaginar ocupar nosso tempo lembrando do simples catálogo de Portinari. Pensamos logo em toda série “Retirantes”, em “Bíblicas” e seus 200 x 301.

 

São Paulo é estranha. Faz-nos se sentir pequenos, mas nos força a pensar grande. É um constante contraste geográfico, dimensional, estatístico. Faz-nos ser únicos e ao mesmo tempo, muitos. É por isso que reafirmo, de São Paulo eu traria o Masp e seus Portinaris. Traria o que restou de uma das mansões Matarazzo (como ficaria perfeita numa viela ouro-pretana!); De lá, as infinitas bancas da Paulista, a convidar, a gritar, a suplicar: ‘comprem revistas, comprem revistas, comprem revistas, seu filho merece uma revista’. Ah! A escadaria da Cásper Líbero. Traria aquela escadaria fria e sempre muito bem acompanhada. De São Paulo eu importaria os resquícios do sol de final de tarde na Vão Livre do Masp e também os cafés e o infinito charme intelectual, ou pseudo-intelectual, como queiram. Traria também as livrarias e com elas uma pergunta: por que todas as vitrines são iguais? Mesmos livros? Mesmos preços? Mesma ordem? Quem acredita em coincidências numa hora dessas?

 

Acreditem! De São Paulo eu traria o pão de queijo da Companhia Mineira, na esquina da Paulista com Brigadeiro Luis Antônio. Minas merecia também um Museu do Ipiranga. “Morte!” – eu tinha vontade de gritar a todo momento só pra  contrariar a memória de Dom Pedro. Traria de São Paulo o patriotismo-pseudo-estadual e aquelas mórbidas bandeiras paulistas por todos os lados. Traria aquele ligeiro e singular olhar de Laika da Babi Borghese num desses cafés. O abraço apertado da Patrícia no congelante vento das 19h (gesto tão incomum nos frios-tratamentos-humanos-paulistas). Ah! Tem também as exposições que não vi, as peças que não assisti, os shows que não escutei. É arte que sobra por lá e arte que falta em tantos outros lugares (viva a Lei Rouanet!).

 

De São Paulo eu deixaria o trânsito e a prospecção de que um dia, de tão lento, será possível expor as artes nos carros que andarão 500 metros por dia. Teremos tempo de apreciá-las? O que você levaria de São Paulo?

JORNALISMO DE COMADRE (OU AS 30 PERGUNTAS QUE NÃO FORAM FEITAS, PORTANTO, NÃO FORAM RESPONDIDAS)

Permitam-me falar de jornalismo. Não de jornalismo cultural, mas de uma certa cultura de se fazer jornalismo. Posso? Pois bem. Nos dois últimos Fantásticos que andei assistindo, Zeca Camargo e Patrícia Poeta ficaram cansativamente anunciando uma exclusiva. Sou fã de exclusiva, mas alguém já disse certa vez: boas respostas só ocorrem mediante boas perguntas. E ouvir aquelas perguntas, tanto no caso Isabella, quando pai e madrasta foram entrevistados, quanto hoje, no caso Ronaldo, foi angustiante. Sem falar nas perguntas que me sobravam na garganta, mas faltavam ser ouvidas. Faltou mesmo foi um ponto eletrônico! Foram entrevistas de se esconder! Valmir Salaro e Patrícia Poeta têm razões fortíssimas de não serem esquecidos pela camaradagem, pelo jornalismo de comadre. Foi um literal “armengue”.  É regra ginasial adaptada toscamente para o jornalismo: o professor finge ensinar, o aluno finge aprender. O repórter finge perguntar, o entrevistado finge responder. Sem arremessar na parede não tem graça! Assim o crime não compensa.

Nem o crime compensa, nem a espera se valida. Em ambos os casos, no meio das entrevistas já me senti enganado. E olha que o escriba aqui trabalha em TV e sabe muito bem o jogo de interesses, o motivo da canseira de anúncios e esses blábláblá todos. E digo mais, nem esperava nenhuma entrevista genial, discussões filosóficas, pra isso assisto Provocações, do Antônio Abujamra. Eu queria simplesmente, respostas. Respostas para coisas óbvias. Respostas para perguntas simples. Elaborei 30 dessas questões que não foram feitas, portanto, não foram respondidas, em especial, para os acusados no assassinato da menina Isabella. Mas não quero deixá-los cansados, até porque quem ainda agüenta ouvir falar disso? Deixo só duas (que nem fazem parte da lista das trinta).

Caso Isabella: para quê aquela entrevista com pai e madrasta foi feita, afinal?

Caso Ronaldo: por que falar disso, ora bolas?

“Não se deve esquecer que o corpo definha, que os amigos morrem, que todos nos esquecem, que o fim é solidão. Esquecer muito menos que esses velhos foram jovens, que o tempo de uma vida é irrisório, que um dia temos vinte anos e, no dia seguinte, oitenta. Colombe acha que podemos “nos apressar para esquecer” porque para ela ainda está muito longe a perspectiva da velhice, é como se isso jamais fosse lhe acontecer. Mas entendi muito cedo que uma vida se passa num tempinho à-toa, olhando para os adultos ao meu redor, tão apressados, tão estressados por causa do prazo de vencimento, tão ávidos de agora para não pensarem no amanhã... Mas, se tememos o amanhã, é porque não sabemos construir o presente e, quando não sabemos construir o presente, contamos que amanhã saberemos e nos ferramos, porque amanhã acaba sempre por se tornar hoje, não é mesmo?

 

Portanto, não devemos de jeito nenhum esquecer aquilo. É preciso viver com essa certeza de que envelheceremos e não será bonito, nem bom, nem alegre. E pensar que é agora que importa: construir agora, alguma coisa, a qualquer preço, com todas as nossas forças. Sempre ter na cabeça o asilo de idosos a fim de nos superarmos a cada dia, para tornar cada dia imperecível. Escalar passo a passo nosso próprio Everest e fazê-lo de tal modo que cada passo seja um pouco de eternidade”.

 

CONSTRUA! LEIA MAIS!

 

(uma homenagem do Mascando Clichê para o dia do livro e para que os jovens não apenas envelheçam, como solicitava Nelson Rodrigues, mas que envelheçam sábios) 

 

Trecho do livro A elegância do ouriço, da filósofa Muriel Barbery (Companhia das Letras)

NA ESTANTE NESSE INSTANTE

 

Eu me emocionava por causa da luz, pelo texto, pela bela interpretação e acima de tudo, por orgulho. Orgulho bobo de pai. Orgulho bobo de ver na tela todo o processo pronto, construído. Tolo iluminismo barato! É uma sensação paterna. É como acompanhar a gestação e depois ouvir os sussurros: ‘olha que coisa linda!’ É uma comparação infantil, eu sei. Mas qual grande livro não foi antes um calhamaço de papel em branco um dia? Qual grande filme não foi um rolo de película virgem? Na Estante foi assim. Surgiu de uma idéia tola, de algumas conversas rápidas e ganhou o mundo. É fruto (e filho) de uma poligamia de idéias, de grandes e pequenas contribuições.

 

É puro iluminismo, já disse? Na Estante é Ana Paula Valois, é Dênio Santos, Na Estante é Cristiano Miguel, Na Estante sou eu. Na Estante somos nós! Na Estante é a idéia ‘more than’ de qualquer comparative, de qualquer coisa! E cada dia assume muito mais um papel de ser belo... de ser uma definição no tempo. É o fazer de conta de que o corre-corre em nossa vida não existe. É o instante da calmaria. É sentir como pode ser largo o que nós chamamos de agora. É literatura...

 

Duas amostras, dois filhos:

 

Programa Agenda (Rede Minas de Televisão) 

Edição: Cristiano Miguel

Produção: Leandro Lopes

Imagens: Guilherme Dutra e Zé Geraldo

 

“Naquele dia me dei conta de que você tinha mais senso político que eu. Você percebia realidades que me escapavam porque não correspondiam à matriz que me usava para ler o real. Tornei-me um pouco mais modesto; ganhei o hábito de fazer você ler meus artigos e manuscritos antes de enviá-los. Eu considerava as suas críticas praguejando: “Por que é que você sempre tem que ter razão?!””

 

Leia Carta a D. – História de um amor, de André Gorz

 

MINHA LISTA DAS COISAS DO PARANÁ

 

 

Escreveu certa vez José Saramago: “é interessante como levamos todos os dias da vida a despedir-nos, dizendo e ouvindo dizer até amanhã...” Até amanhã eu disse à Curitiba faz poucas horas. Mas foi um ‘até amanhã’ sem muita certeza do amanhã, sem nenhuma certeza de que voltarei a vê-la. A aventura curitibana tinha deixado marcas silenciosamente gritantes e sei bem que caso elas não sumam em 48 horas, certamente sumirão em 48 dias. Mesmo que não desapareçam completamente, mesmo que não abandonem meu corpo profundamente, tenho a certeza que não se manterão na superfície das minhas lembranças por muito tempo. Na dúvida, preferi escrever minhas impressões e seguir a fazer listas e mais listas. Que as listas se eternizem!

 

Das coisas do Paraná, das coisas de Curitiba, eu traria até Minas Gerais o poluído Rio Iguaçu, que desemboca nas belíssimas cachoeiras vibrantes da sua foz. De lá eu traria pra cá as árvores paradas, as folhas calmas, aquele clima sem vento, perfeito para lançar papéis ao ar. Eu traria a VX de Novembro, vulgo Rua das Flores. Trá-la-ia principalmente nas horas calmas das madrugadas, onde qualquer simples voz animada incomoda as pedras portuguesas preguiçosas.

 

Ah! De Curitiba importaria os casais jovens e tranqüilos a trocar beijos nos bancos gelados do centro da cidade. Importaria os ônibus conversadores, eles se comunicam com seus passageiros com respeito. São verdadeiros metrôs em rodas. Eu traria do Paraná o seu aeroporto sem McDonald’s e sem Bob’s e sem Habib’s e sem essas multinacionais. De lá, eu colocaria na mala a língua espanhola, propagada no aeroporto como segundo idioma, no lugar do chato e burro inglês. De Curitiba eu carregaria o talvez dos cinco dias mais válidos que cinco anos em lugares que não conheço. Traria a substituição do ponto final, pelo dialeto ‘daí’. Lá se fala daí, daí.

 

Curitiba deveria exportar o respeito que seus habitantes têm pelo trânsito e deveria ensinar que nas escolas se deve formar uma única fila de carros e não ocupar todas as faixas das avenidas. Mesmo com os abraços frios dos seus habitantes e os apertos de mãos sem firmeza dos curitibanos, Paraná é um mágico lugar! De lá, sobretudo, trago a certeza que educação existe e que basta aprendermos a aprender! De Curitiba traria muitas coisas e deixaria saudades. Essa é minha lista!

IMPRENSA, COMEMOREMOS!?

 

Festejando duas décadas, a Imprensa Editora lança “Vintenário – Duas Décadas de Imprensa em Revista”.

 

O que temos a comemorar? No vídeo abaixo, que fiz para o programa Agenda, da Rede Minas de Televisão, uma discussão sobre a importância dessa revista para a crítica de mídia e o que mudou nesses 20 anos. Afinal, o que você acha desse veículo? Quatro importantes jornalistas mineiros deixaram suas opiniões. E você? Em ordem de ‘aparição’: Ana Maria – Professora de comunicação da PUC/MG, Lucas Figueiredo – Repórter especial do jornal Estado de Minas (e ganhador de vários Essos), Manoel Guimarães – Apresentador da TV Assembléia de Minas Gerais e Aloísio Morais Martins – jornalista do jornal Hoje em Dia.

 

Como tenho dito, aprecie sem moderação!

 

 

 

Ficha técnica

 

Programa Agenda

Imagens: Nelson Barraza

Edição: Quézia Gontijo

Produção: Leila Pinho

Reportagem: Leandro Lopes

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