TODOS OS NOMES DO MUNDO*

 

 

Acho que foi ontem. Esses dias de frio intenso e sem chuva são sempre tão iguais, que sempre me confundo. Desci a portaria para receber um novo livro. Eles sempre vêm poeticamente disfarçados em envelopes pardos reforçados. O motoboy era o mesmo de algumas semanas. “Bom dia Edgar. Tudo bem?” - cumprimentei. O que tem de mais nesta frase? Exatamente por não ter nada de mais que Edgar tentou ocultar seu desconforto. Tentou esconder o sorriso que lhe forçava o canto da boca. Edgar é sempre tão anônimo. Sempre tão e cada vez mais, um simples entregador. Tenho certeza que boa parte das pessoas sequer olha em seus olhos, sequer percebe seu capacete arranhado e aquelas marcas do perigo do ofício. Confesso que se não fosse meus problemas de memória, Edgar não receberia o meu efusivo, pessoal e intransferível cumprimento. Não! Minha frágil memória não permitiria lembrar daquilo que o torna gente nesse mundo desumano: seu nome.

 

Nome! Não existe melhor invenção histórica que essa. Nome nos permite ser único e ao mesmo tempo ser vertentes de vários outros. Minha mãe, por exemplo, tem um nome tão comum que ao mesmo tempo em que possui inúmeros nomes de mortos, ela possui incontáveis nomes de tantas pessoas vivas e, o mais extraordinário, minha mãe possui nome de muitas que nascerão. O nome dela é Maria.

 

Há algum tempo associo o nome das pessoas que acabo de conhecer a personagens de romances e até mesmo (quando se tem o privilégio documental) aos grandes escritores que já li. “Edgar” não é um nome de se esquecer na primeira virada de esquina. Como é possível esquecer do nome de alguém capaz de escrever “A Carta Roubada”. Quer saber um nome que nunca esqueço? “Janaína!” “Janaína” é a eternidade do feminino. Quantas músicas não foram escritas com estas sete letras? Salve Dorival! “Beatriz”. “Beatriz” passou a ser, desde Dante, inconfundível. “Constante”. Não conheço ninguém com esse nome, mas será imortalizado na minha memória o dia que ouvir de alguém: “prazer. Meu nome é Constante!”. Imagina alguém ter o nome do único personagem que Saramago nomeou e fez questão de apresentar ao leitor no “Ensaio sobre a cegueira”?

 

Quando percebi o desarranjo de Edgar, tive vontade de contar. “Olha aqui, desculpa a sinceridade – porque a gente precisa pedir perdão para ser sincero, afinal? – mas lembro do seu nome por causa de Edgar Allan Poe. Você conhece?”. Mas nestas horas de associações nominais sempre tenho dois caminhos a tomar: ou fazer de conta que tenho uma excelente memória (e invariavelmente isso quer dizer – visto a partir do lembrado – que ele significa algo pra mim), ou parecer um pseudo-intelectual conformista que fez questão da pergunta única e simplesmente para parecer inteligente. Já dizia João Cabral de Melo Neto: “o homem sábio sempre evita dizer a verdade quando ela parece ser mentira”. Invariavelmente opto pela escuridão dos meus ainda escassos conhecimentos. Opto pela clandestinidade do meu ainda raso caminho literário.

 

É estranha essa maneira que os nomes têm de embrenhar-se no meu espírito. Se isso tem um sentido, um sentido explicável, só posso dizer que me escapa completamente. O que sei é que os nomes são pérfidos, em especial, para os pobres ‘desliterariamente’ abandonados. Não saber a quem já pertenceu o seu nome, é a mão de ferro fervente do destino. Não tive coragem de perguntar se Edgar sabe. Nunca terei. “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens” **.    

 

*Texto fortemente influenciado pela minha última leitura: “Todos os nomes”, de José Saramago.

**Livro das Evidências – trecho destacado no início de “Todos os nomes”.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL , Sudeste , BELO HORIZONTE , Homem

 
Visitante número: