LIVRO ARBÍTRIO

 

 

“Ser imortal é insignificante; exceto o homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível, é se saber imortal. [...] Sabia que num prazo infinito a todo homem acontecem todas as coisas. Por suas virtudes passadas e futuras, todo homem é credor de toda bondade, mas também de toda traição, por suas infâmias do passado ou do futuro”

 

Quer tentar compreender o mundo? Então leia O Aleph, de Jorge Luis Borges

 

Trecho do conto “O imortal”. Uma homenagem do Mascando Clichê aos 22 anos de morte do maior escritor argentino (Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — Genebra, 14 de Junho de 1986)  

“1968 É UMA OBRA ABERTA”

 

 

 

O título deve ter sido a primeira coisa que ele escreveu com sua inseparável caneta Bic: “1968 – o ano que não terminou”. Por mais que se pense, por mais que se tenha pessoas criativas e tituleiros experientes, talvez ninguém poderá achar melhor definição para 1968 do que a dada pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura, em 1988. De fato, aquele ano não coube em 12 meses. E só mesmo Zuenir para dar esse título tão cheio de ares infinitos e começar o livro de uma forma tão curta e objetiva: “A nossa história começa com um réveillon e termina com algo parecido a uma ressaca”.

 

Mas nem as quase 300 páginas dessa primeira obra publicada em 88 foram suficientes para relatar tantos acontecimentos entre esse réveillon e essa ressaca. 40 anos depois, 20 após o lançamento do primeiro livro, Zuenir repete a fala: “Como eu ia dizendo... ou melhor, como eu disse há vinte anos [...], a história que eu ia contar começava com um baile de réveillon...” Mas, desta vez com o livro “1968 – o que fizemos de nós”, o escritor revela o que remanesce de um dos mais importantes anos do século XX, dividindo a sua visão de repórter (primeira parte), fuçando heranças de meia-oito em raves e batidas policiais com a visão de personagens (segunda parte), por meio de entrevistas perspicazes com nomes como Caetano Veloso e Heloísa Buarque de Hollanda. Ao final das leituras, nunca se sabe se ambos os livros são as respostas para as perguntas de Zuenir ou as perguntas para suas respostas. O que fica claro é que, parafraseando o próprio escritor, a história desabou sobre sua biografia.      

 

Outra certeza é que mesmo os dois livros dedicados ao tema, lançados em uma edição comemorativa pela Editora Planeta, numa caixa que reúne as duas obras (1968 – o ano que não terminou (revisado) e 1968 – o que fizemos de nós), não são suficientes para dizer tudo sobre aqueles meses. “Talvez daqui a vinte anos eu lance outro livro e mesmo assim o assunto não se esgotará”, brinca Zuenir Ventura.     

 

Se a gente pensar em 1945, a gente lembra do fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1989, a queda do Muro de Berlim. 2001, o atentado às Torres Gêmeas. São exemplos de um único dia que marcou todo um ano. Mas 1968 tem uma pluralidade de vários acontecimentos: revolta dos estudantes em Paris, Primavera de Praga, Passeata dos Cem Mil, AI-05, minissaia, Tropicália, assassinato de Martin Luther King, enfim. Por que tudo aconteceu de uma forma tão conectada exatamente em 1968?

 

Acho que esse é um dos mistérios de 1968. Por que naquele momento em vários países... país comunista, socialista, capitalista, país com ditadura, com democracia... em cidades  que não tinha nada a ver uma com a outra, sem globalização, sem internet. Por que naquele momento houve tanta sincronia de acontecimentos e mais, de sincronias de atitudes, né? De repente os jovens passaram a usar os mesmos cabelos, as moças a mesma minissaia, todo mundo ouvindo a mesma trilha sonora, Beatles, Rolling Stones. Quer dizer, esse é um dos mistérios que ainda não foi esclarecido. É um desses segredos da história. Não tem como ser respondido. Tinha um autor francês que lá em 1968 dizia assim: ‘serão precisos muitos anos para se entender 68’. 40 anos depois, eu continuo dizendo: serão precisos muitos anos para se entender 68.

 

O que mudou na sua visão, do momento em que o senhor escreveu o primeiro livro, em 1988, e o segundo, em 2008?

 

Eu nem ia escrever esse segundo. Ele se escreveu quase que sozinho. Eu só iria fazer uma revisão, mas a medida que eu ia revisitando os personagens, revisitando aqueles acontecimentos, eu fui descobrindo um novo livro. Aí liguei para o editor e disse: já estou fazendo outro.

 

Por quê?

 

Porque eu comecei a procurar vestígios de 1968 nos vários lugares. Tem um capítulo do livro que é “Há um meia-oito em cada canto”. Tem meia-oito no Governo, na oposição, na esquerda, na direita, no Congresso, no Supremo. Todo lugar tem um meia-oito. Incrível! Descobrir vestígios daquele ano até em festa rave. Encontrei 1968 em diversos comportamentos dos jovens de hoje. Ele acabou sendo um diálogo entre as duas juventudes. A juventude de 68 e a de hoje!

 

Então foi um processo de criação completamente diferente do primeiro livro. O senhor mesmo já falou que no caso do “1968 – O ano que não terminou”, foi preciso uma conspiração [envolvendo sua mulher Mary e o Sérgio Lacerda, então dono da Nova Fronteira Editora] para que ele fosse feito.

 

É verdade. Essa observação é perfeita. Esse surgiu naturalmente. Bem diferente do lançado em 1988.

 

Talvez uma conspiração dos fatos...

 

(risos) É verdade! Bastou olhar com um pouco mais de cuidado para perceber 1968 em todos os cantos, por isso foi inevitável.

 

Perceber a fragmentação, por exemplo?

 

Exatamente! O segundo livro é feito de segmentos. Tem um capítulo que chamo de “Viva o corpo brasileiro!”, que fala de mudança. Eu brinco nele dizendo que sai Freud e entra o cooper. Quer dizer, você hoje não faz mais a cabeça, você faz o corpo, né? Você vai pra academia de musculação, não vai mais para a academia dos livros. Geração é um bom exemplo da fragmentação. Hoje você não fala mais em geração, isso até é uma tendência pós-moderna, na verdade você fala em tribos. É uma grande diferença para 40 anos atrás.

 

O primeiro capítulo do “1968 – o que fizemos de nós”, mostra muito isso.

 

Isso. Fiz uma revisitada ao famoso réveillon da Heloísa Buarque [de Hollanda], no capítulo “Reflexos do baile distante”. São três senhoras hoje, avós, cheias de netos que eram as meninas daquela época. E foi exatamente isso. Acabou sendo uma conversa sobre ontem, mas muito mais sobre hoje, muito mais sobre essa ‘geração’ fragmentada dos netos delas.

 

A segunda parte do livro é dedicada a entrevistas. Como se deu a escolha? Há tanto meia-oito importante e com tanta coisa para dizer.

 

Claro. Eu escolhi sete, mas poderia ter escolhido 14, 21 e até 100 mil, como a Passeata (risos). Como a primeira parte é um mergulho de reportagem...

 

O senhor parou até em rave, até em batida policial.

 

Então. Mas é uma coisa que nós jornalistas adoramos fazer, né? O melhor do jornalismo é a reportagem, é cair no campo e apurar. Sem falar que é a chance da gente fazer coisas que na vida civil não se faz. Aí eu queria que tivesse além desse meu olhar, desse olhar de repórter, tivesse alguns outros olhares. Que fosse uma coisa plural. O critério que usei foi o seguinte: escolhi sete personagens de grande importância naquela época.

 

Insisto. Mas por que esses sete e não outros? Por que não 14, por exemplo?

 

Bem, para cada um usei um critério diferenciado de escolha. Talvez o primeiro que pensei, por exemplo, foi o Fernando Henrique Cardoso, que conheci quando eu estava de férias em maio de 1968, na França. E dos vários personagens que também estavam lá, como o Zé Celso [Martinez Corrêa – diretor de teatro], a Íttala Nandi [atriz] e outros, Fernando Henrique foi quem chegou mais longe. Quer dizer, chegou à Presidência da República duas vezes. Eu pensei: que experiência maravilhosa. Ele viu tudo começar lá e depois assumiu o cargo mais importante do país aqui.

 

Antes de você continuar falando dos escolhidos. Estar de férias na França naquele maio de 1968 me martela a seguinte questão: 1968 lhe persegue ou o senhor persegue 1968? Por que FHC estar na França, tudo bem. Ele era inclusive professor de Daniel Cohn-Bendit [ex-líder estudantil e atual deputado europeu], já estava engajado. Mas passar férias justamente onde aconteceria um dos maiores, entre tantos, acontecimentos daquele ano...

 

(risos) Se ele me persegue ou eu a ele? Eu acho que as duas coisas. Foi um ano muito marcante para minha geração e eu sabia que teria que entendê-lo ou pelo menos tentar. Então as coincidências me levam a pensar que ele me persegue, mas eu também o persigo. Até entendê-lo. Eu terminei esses dias uma entrevista com o Jô [Soares] e aí ele disse: ‘Zuenir, então daqui a vinte anos você volta aqui com outro livro sobre 1968’. (risos) Eu falei: ‘se bobear, será isso mesmo’.

 

E o assunto ainda não terá se esgotado.

 

Pois é. Serão precisos muitos anos para desvendar 1968.

Continua falando dos entrevistados na segunda parte do segundo livro.

 

Depois do Fernando Henrique, eu pensei no José Dirceu porque ele é talvez a figura mais controvertida de todos meia-oito e que foi líder de 1968 em São Paulo, na época, e que chegou a ser o segundo homem do Governo Lula e saiu com toda aquela história. Era muito interessante saber o que ele pensava de tudo isso. Depois pensei no Franklin Martins que além de ter feito frente na Passeata dos Cem Mil, também foi um dos seqüestradores do embaixador americano e hoje cuida da comunicação do Governo Lula. Aí veio o Fernando Gabeira, Heloísa Buarque, o Caetano, que foi o cara que fez a trilha sonora daquele período e, claro, o Cezinha [César Benjamin] que tem uma história muito dramática. Ele ficou preso cinco anos dos quais três em absoluto isolamento. Enfim, são sete personagens com grandes histórias para contar. Achei que com eles a gente teria um grande painel de 68 e dos anos posteriores.

 

Tem um capítulo do livro que é “A culpa é de 68”. Ele tem relação com o filme “A culpa é de Fidel” [Dir.: Julie Gavras – 2006]?

 

Tem. Esse capítulo é uma citação desse filme extraordinário. Foi até minha filha que indicou. Fui ver o filme e descobri que, quando fui preso como todo mundo naquela época, por nada, minha filha tinha 4 anos e ela ia me visitar e eu ficava com medo que ela ficasse traumatizada, aí eu ficava dizendo: ‘Elisa, imagina. Isso aqui é ótimo! Eu e o Hélio [Pellegrino] a gente tem 15 minutos de banho de sol por dia, a gente aproveita para jogar basquete, está ótimo!’. Fiquei tentando mostrar o lado bom para não traumatizá-la. Mas aí eu descobri depois que na cabeça dela eu achava tão bom a prisão que eu tinha escolhido ficar lá em vez de ficar em casa. Ela pensava: ‘se está ótimo lá, ele não vai mais querer voltar’. Isso me alertou e aí eu comecei a conversar com filhos de outras pessoas, como o filho do Betinho, por exemplo, e a filha do Ziraldo, que também tinha a mesma sensação da minha filha. Essas histórias me inspiraram para esse capítulo. Outra coincidência foi que logo depois o meu filho, o Mauro [Ventura], me indicou “O ano que meus pais saíram de férias” [Dir.: Cao Hamburguer – 2006], e o garoto tem o mesmo nome dele e a mesma história...

 

Olha a perseguição de 1968 aí.

 

(risos) Exatamente. O capítulo é todo autobiográfico.

 

Zuenir Ventura tem virado identidade de 1968, certo? Isso não cria uma confusão nos leitores? As pessoas não lhe cobram além das suas atribuições como escritor?

 

Pois é. As pessoas, às vezes, me cobram por 1968 (risos). Eu tenho que dizer sempre: eu sou um personagem que apenas relato o que vivi e ouvi, nem defendo nem acuso. É curioso porque 1968 não é um ano, é um personagem. Vejo as pessoas atribuir a ele adjetivos humanos. 68 é muito besta! 68 é onipotente! 68 é cheio de si (risos). Mas eu não sou responsável nem pelos feitos nem pelos desfeitos de 1968.

 

O que foi feito e o que foi desfeito politicamente? O que o senhor diria da geração de 68 que chegou ao poder?

 

Essa geração desvirtuou um valor sagrado de 68 que é o valor da ética. Minha principal crítica, e não tenho tolerância com relação a isso, é que foi desfeito esse valor. A ética como uma prática e como um valor. Nada justifica isso. Uma coisa é você fazer acordos políticos, parcerias em função do bem público. Agora, tem limites, há coisas que você precisa dizer: “a partir daí não faço nada”.

 

Qual grande escritor o senhor encontrou em 1968 que também é importante para se pensar sobre aqueles meses, 40 anos depois?

 

Eu acho que é Umberto Eco. Eu cada vez mais me identifico com ele. Ele escreveu um livro chamado “Obra Aberta” e deu um novo sentido para as várias interpretações da leitura. É riquíssimo para se entender qualquer ano, mas para 1968, é fundamental. “Obra Aberta” mostra leitura num sentido muito mais amplo. Você olha para um quadro e o lê de várias maneiras. Era algo pouco dito e discutido naquela época. 1968 é um obra aberta (risos)

 

Falta ser dito alguma coisa de 1968? O quê?

 

Não sei, mas certamente faltará sempre. Ele é um ano aberto, assim como o livro do Eco. É um ano muito misterioso, enigmático. A principal coisa é se questionar: por que naquele ano houve essa sincronia planetária? Uma sincronia sem ter nenhuma conexão, sem internet. Acho até que 1968 foi o primeiro evento de globalização do planeta. É isso: por que tantas coisas aconteceram naquele ano?

 

E aí a gente volta para a primeira pergunta dessa entrevista. Vamos começar novamente, então?

 

(risos) É a prova de que muita coisa ainda falta ser dita sobre 1968.

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