E A ARTE LEVOU COPACABANA PARA A OCA...
...E A OCA VIROU MAR!
Imagem da exposição Bossa na Oca, Parque do Ibirapuera – São Paulo
Eu, que nada mais amo
Eu, que nada mais amo
Do que a insatisfação com o que se pode mudar
Nada mais detesto
Do que a profunda insatisfação com o que não pode ser mudado
No dia 14 de agosto de 2008, lembrou-se 52 anos de morte do homem que retratou sua época e seu mundo por meio da dramaturgia e da poesia. Sobre Bertolt Brecht, escreveu Willi Bolle na orelha do genial “Poemas 1913-1956”: “Seus poemas falam do ritual de se lavar, da leitura de jornal ao fazer o chá, do pequeno aparelho de rádio, do dinheiro, do desemprego, do registro das palavras que gritam uns aos outros”.
Queria tanto que todo mundo conhecesse o lado poeta de Brecht...
O ESPORTE É A VIDA, MAS NUM OUTRO RITMO!

Era oito e cinco da manhã, ainda fazia frio e sequer eu tinha colocado a cafeteira para trabalhar. Mas o computador já estava funcionando e a internet conectada. Nem lembro se tinha escovado os dentes ou lavado o rosto. Criei o hábito de levantar, calçar as sandálias, caminhar sonambulamente até o escritório e apertar o botão. Acho que viciei no barulho da placa de vídeo despertando ou talvez goste de imaginar que existe algo funcionando primeiro do que eu. Entre um bocejo e outro, faço minha revista diária por alguns sites e blogs, mas hoje, especialmente hoje, decidi entrar no que se chama de grandes portais de notícias (embora não faço idéia do que isso queira dizer hoje em dia). E então, lá estava a foto dela. Mal meus olhos permitiam se abrir para a leitura da manchete, eu reconhecia a imagem. Pulso ao ar, sorriso malandro de quem acaba de cumprir uma missão boba. Sorriso de quem ainda não percebeu a grandiosidade da conquista. Lá estava: “Ketleyn ganha 1ª medalha olímpica do judô feminino do Brasil!”
Era ela. Para narrar o que senti, a voz humana, ou os vocabulários disponíveis, não são suficientes. Por que é tão difícil descrever sensações? Arrepiei-me, vibrei junto com ela, sai com vontade de gritar ‘Ketleyn!’ pelas janelas – como faço nos suados gols do meu Bahia. Cheguei a sentir o gosto salgado de uma lágrima que ganhou meu rosto, o calafrio ágil dos pêlos
Ketleyn Quadros, 20 anos, judoca, estudante de educação física, atleta do Minas Tênis Clube, havia há três meses interrompido um treinamento e se colocado a minha disposição para a gravação do quinto vídeo do FIZ + Sotaques. Na conversa, que falava sobre o lado B do Esporte e coloca em questão se ele era saúde ou não, Ketleyn, residente de uma república feminina
Talvez o nome que mais se propagou no google nas últimas horas e que eu, entrevistador de carteirinha, tenho orgulho de ter ouvido antes de toda imprensa brasileira. Mas mais que isso, tenho orgulho de ter a conhecido e ter compartilhado sua determinação com todos que viram o vídeo.
O esporte é a vida, mas num outro ritmo!
O pão de sal continua na mesa...
O disco de Jobim, na vitrola...
...eu não como pão de sal
“O teatro é a poesia que salta aos livros...”
Não sei o porquê, não sei como, não sei onde, mas o espetáculo que acabei de ver (Federico García Lorca: Pequeno Poema Infinito) mexeu profundamente comigo. Ainda ouço o cantarolar do ator, o cheiro de Granada, o barulho do riacho. Não quero descobrir as razões para não perder o encanto.
NENHUMA LEMBRANÇA SERÁ CASTIGADA!
Em linhas gerais, concordo com Ireneo Funes (personagem de Jorge Luis Borges). A memória é mesmo um lixo! Mas esses dias, mais que concordar, eu compartilhei uma experiência com “o memorioso”. Guardadas as proporções, é claro! Quanto das tantas sensações vividas a gente guarda? O que você lembra, sensorialmente falando, daquele abraço apertado de despedida há duas semanas? Do último de tantos “até mais” antes do telefone ganhar o gancho? Do beijo molhado que até estalou na buchecha? O que você lembra do aperto de mão antes do almoço de hoje? Sequer lembra que existiu um aperto de mão, né? Com o passar dos dias, das semanas, dos meses, com a chegada da frase apocalíptica “como passou rápido!”, com o aproximar daquelas dúvidas ensopadas de amnésia, a gente, ou melhor, nossa memória vai deixando o doce sabor de sinestesia pra trás. Cada vibração, cada sorriso. Lembramos cada vez mais dos resultados e fragmentamos o processo. Recordamos das sensações grotescas e grandes, esquecemos dos detalhes que fazem a diferença. Não é assim?
Pois é! Para Ireneo não! Nem pra mim quando o assunto é Fiz + Sotaques! É assustador, mas recordo minuciosamente de muito e principalmente, das pequenas sensações. “Punhos ao ar!”; “Gols de voleio!”; “beijos de boa sorte pré-estréia!”; “Olés!”. Lembro e me encho de orgulho das lembranças. Ninguém será capaz, talvez nem eu seja, de apostar no quanto ganhei com os seis primeiros programas exibidos pelo FIZ TV. Talvez descubra por acaso daqui a alguns anos, talvez seja um cálculo que não dependa de tempo, de espaço.
Ganhei no processo e gostaria que vocês compartilhassem do produto final. Para quem já conhece, sinta-se em casa; para quem ainda não, saboreie sem moderação... os seis programas abaixo...
Sexto programa: Ditadura descentralizada: como ela aconteceu fora Rio-SP?
Quinto programa: Esportes - lado B
Quarto programa: Moradores de rua: a invisibilidade dos visíveis - parte 2
Terceiro programa: Moradores de rua: a invisibilidade dos visíveis
Segundo programa: Marketing Verde - para o bem ou para o mal!?
Programa de estréia: Sotaques
SELEÇÃO
O suco de beterraba estava insosso, mas não era isso que me deixava apreensivo. O modo como o homem da bandeja e gravata borboleta havia olhado para o meu bolso, era o motivo. Será que desconfiara? O punhal estaria amostra? Desço disfarçadamente o meu olhar. Não, definitivamente não. Mas agora, quase sempre, todos me olham menosprezadamente. Saberiam eles? Até as coloridas letras do seja bem-vindo e volte sempre estavam me observando de canto de olho. Só a peça musical que fazia papel de bêgê conseguia me acalmar. E como conseguia! Poderia aumentar, por favor? Gostaria de saber quem é o desvairado compositor. Ninguém me ouve, falo para mim mesmo.
Ocorreu-me uma justificativa! Graças! Pelo menos uma. Tentei achá-las escondidas nos cantos da minha casa e até nos becos do caminho até aqui, mas nada foi encontrado. Finalmente! Gritei calado e minimizadamente. Nada poderia parecer-me mais óbvio: ‘ossos do ofício’. Eu faria aquilo porque fazer aquilo faz parte do meu trabalho. Estranho que nenhum peso cessou. Nenhum aplauso chegou. Nenhum suspiro alarmou. Estanho... E a melodia ganhava voz. De quem será?
Ela apareceu na porta giratória-surreal-barroca-gótica. Ela veio acompanhada? Puta merda! Vós viestes encontrar a morte e ainda arrematas duas almas? Ela não respondeu. Ela sorriu. Era uma manifestação de um sentimento de benevolência sincera. Talvez minha pergunta não tenha saído do cérebro. É, realmente não saiu. Todos sentaram. Ela no centro, como uma Cleópatra do século XXV, o tatuado do lado esquerdo e o magricelo no direito. O primeiro era baterista. De tanta falta de carne, deduzi que o outro nenhum instrumento conseguiria carregar. Eles queriam meus conselhos musicais. Logo eu. Pobres juvenis. A trilha sonora me fez desviar o pensamento por alguns segundos. Aquela voz era cada vez mais familiar... de quem?
Nossa! Não durmo desde o dia em que marcamos o encontro. Disse todas essas palavras sem demover o sorriso. Não teve, porém, coragem de olhar nos meus olhos. Aproveitei o desvio de caráter e observei que as partículas avermelhadas do suco perdiam espaço para o verde esperançoso dos jovens. Queria acabar logo com aquilo. Levei a mão ao punhal, senti o metal gélido. Era só puxar e cravar nos corações sonhadores, exorcizando os anjos pedintes do outro lado da mesa. Não era hora, talvez nunca fosse. Tinha que contar algo, desviar o assunto. Lembrei da musicalidade ridícula e veio um pensamento suicida. Era melhor morrer do que ter que ouvir aquele disco novamente. Busquei o som aconchegante das caixas espalhadas pelo barzinho...
A ansiedade da moça não me deixaria escapar. Ela insistentemente solicitava o rasgo severo do punhal. Ela queria gritar e, enquanto tivesse vida, argumentar, argumentar e argumentar a musicalidade ridícula, grotesca, infantil e ruidosa. Nada seria capaz. Então? Que podemos melhorar? O senhor gostou mais da qual? Qual das 10 faixas do CD o senhor menos gostou? Não achou a capa linda? Foi uma amiga de uma amiga minha, lá do Santa Teresa, que desenhou na praia dos pregos azuis. Lá sujeira pouca é bobagem. A suicida não parava de falar. Cala-te! Até as letras coloridas do seja bem-vindo e volte sempre pediam silêncio. Era agora ou nunca. Esqueci de tentar descobrir de quem era aquela voz...
O sorriso continuava inalterado no lindo rosto de cadáver. Ela e eles já sabiam o que ouviriam. Com certeza. Mas nem passou pela cabeça ansiosa que poderia tudo está errado. Como uma bosta? Como assim o pior o som que você já ouviu? Eu também dediquei alguns becos no caminho para imaginar os argumentos indignados. Já fizemos shows para duas centenas de dúzia de esqueletos de carne... Todos os conheciam e certamente o mercado estava precisando de mais novas doses de besteirol. Então? O sorriso já perdia força. Ele fala agora de cabrochas, moças e choros...
Chegou a hora! Ossos do ofício. Que o seja bem-vindo me proteja. Puxei e, como fantasmas nas orações alheias, os punhais multiplicaram-se. Um só golpe, três corações dilacerados. Preciso matá-los, tenho compromisso às 17h. Foi um prazer... Mas todos gostam. Todos cantam. Aplaudem. Os argumentos foram os piores possíveis. Já morta, a vocalista gritou com seus timbres irritantes de sempre: você não entende nada de música. Vá a merda! Enquanto levantava, seus dois escudeiros na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, empinavam o nariz. Sumiam na porta giratória do século X. Chico! Gritei calado. Chico Buarque de Holanda! Finalmente! Era dele a voz calmante... Por que todos os músicos não são chicos?
Olhei o relógio. Estava na minha hora. Preciso ir... deixei o copo de beterraba cheio, o punhal ensangüentado na mesa e saí pensando na pinha de CD dos novos sons. Estava tudo
NA ESTANTE
Um pouco mais de boa literatura! Na Estante com o ator mineiro Marcelo Gabriel!
Leiam! Por que como diria o autor da vez, se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.
Ficha técnica:
Programa Agenda (Rede Minas de Televisão)
Edição: Cristiano Miguel
Produção: Leandro Lopes
Imagens: Guilherme Dutra e Zé Geraldo
REVERBERANDO
Esses dias, visitando meus blogs preferidos, eis que encontro com este perspicaz texto de Álvaro Muller (que mesmo torcendo para o Vitória, faz parte dos 10-melhores-jornalistas-sergipanos-contemporâneos e que aliás já foi elogiado algumas vezes no Mascando). Identifiquei-me, ora bolas! E quis compartilhar com todo mundo que anda por aqui e que ainda não tinha andando por lá (clique agora e conheçam o botecospício). Com vocês a contradição cada vez mais viva das redações jornalísticas... sem mais delongas:
O PROFISSIONAL-RELÓGIO
Por Álvaro Müller
Esqueça o coleguismo. Amizade? Nem pensar. Adoeceu, perdeu um parente, precisa viajar, visitar o gerente da sua agência bancária antes que o seu nome vá parar no SPC? Problema seu. Não conte com o profissional-relógio, a não ser que a ‘caridade’ dele possa ser revertida no bendito banco de horas. Em suma, ele ajuda a si mesmo botando a banca de quem salvou a vida do colega. Mas, como diria meu amigo Anderson Ribeiro, um desses bestas que não admitem a possibilidade de colocar o tico e teco funcionando ao ritmo compassado do tic e tac, “banco de horas é coisa pra quem não tem o que fazer”. E num é que ele está certo?
O profissional-relógio não enxerga nada além do seu horário de entrada e saída no trabalho. Para aquém ou além do que registra no ponto, não faz nada que não lhe dê retorno. Foi contratado para trabalhar 8 horas e a empresa que se dane ou pague por cinco minutos que sejam a mais.
Já profissionais bestas como eu e Anderson Ribeiro são raros. E é por isso que trabalhar com ele é um alento. Somos bons jornalistas? Sei não. Mas é certo que somos esforçados, trabalhamos pela pauta, pelo amor à profissão e, sobretudo, pelo prazer de degustar uma cerveja gelada após horas e horas de labuta. Ah! E só brigamos quando o trabalho nos rende elogios. “O Mérito é dele” quase que uníssono e dedos indicadores em riste.
Gente como a gente quer é produzir e fazer bem feito, sem necessariamente aguardar uma contrapartida dos nossos empregadores. É uma questão de competência, de valorização do próprio suor, de compromisso com aquilo que se propõe a fazer. Trabalhadores como eu e o Ribeiro viram madrugadas no batente, não têm tempo de fazer refeições dignas – e justamente por isso estamos tão redondinhos –, colocamos nossa saúde em risco, mas acreditamos no que fazemos. Os profissionais-relógio não sabem disso, mas trabalhar é também uma diversão pra quem ama o que faz e se reconhece como parte da engrenagem de uma empresa, tanto no semear quanto no colhimento dos frutos.
Ah! E antes que eu esqueça de comentar, à exceção dos casos em que a contraproducência compromete o nosso trabalho, eu e Anderson Ribeiro também não nos incomodamos com o que fazem ou deixam de fazer os outros colegas. Coisa que os profissionais-relógio têm como atribuição cotidiana, talvez, por conta do tempo de sobra para pensar na vida alheia. Eles não estão com a gente nas madrugadas, não abrem mão da praiazinha do final de semana, não fazem um servicinho sequer fora da empresa com combustível próprio, mas se sentem no direito de nos ‘cobrar’ 10, 15 minutos de atraso. Vá entender...
Percebo que as próprias empresas têm parcela de culpa por cultuarem nesses espiritozinhos formatados a prática de bater o ponto rigorosamente em dia e não precisar justificar horas e horas ociosas de msn, orkut, lixamento de unha e coisas do tipo. As empresas realmente nivelam a produção por baixo e acabam se transformando em empregadoras-relógio para quem vive sob a égide do horário fixo de trabalho. Agora, isso não dá aos frustrados profissionais-relógio o direito de tentar nos demarcar a vida. Porque diabos nunca comparam a nossa produção, ora bolas?
No final das contas, profissionais como eu e Anderson Ribeiro até tentam aturar esses vigilantes de quinta, sobretudo, por que deve ser um calvário trabalhar, criar por obrigação. Mas também têm horas que esses profissionais-relógio nos enchem a paciência, né? Daí, só nos resta responder no melhor estilo Débora Garrafinha, querida colega da Aperipê: “Caralho, velho! -----, vão se fuder, velho! Muito foda isso!”.
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